sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Conversinhas...


Pedro e João descendo a escada. Pedro chega primeiro e grita:
-Eba, eu ganhei!!!
João responde:
-Eba, eu perdei!
Pedrinho tenta corrigir o irmão: - É "eu perdi".
João responde: - Não, você ganhou. Esse Pedo é mauco...

Pedro Tatibitati

O Pedrinho, até os três anos, trocava o som de "k" pelo "t". Era um tal de tabelo, tabeça, tavalo, tachorro...

Ele tinha uma capivara de pelúcia e só a chamava de "tatavala".

O mais engraçado é que a gente tentava ensinar a pronúncia, falávamos:
-Pedro, fala assim: k k k k k CAVALO.
E ele respondia:
-k k k k k k k k k k k TAVALO!!!


"Ói nóis aqui..."

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

"Ói nóis aqui"


Banho de Princesa

Naná em seu banho de beleza : )

Ana Cecília


O Nascimento de Ana Cecília

Sonhos
Numa noite, há pouco mais de um ano, eu desejei uma menina. Eu já tinha dois meninos e com eles aprendi muito sobre o universo masculino, mas, de repente, senti que precisava de alguém para partilhar experiências do feminino. Foi então que eu sonhei que abraçava e beijava uma grande deusa, lembro que essa deusa possuía uma vagina gigante, como se estivesse parindo. Pouco depois descobri que estava grávida. Infelizmente eu tive um aborto espontâneo e o processo foi muito difícil e doloroso para mim. Fiquei um bom tempo deprimida. Um dia, o meu filho, Pedro Gabriel (com 3 anos na época), disse: “Você está triste? Peraí que eu vou falar pro papai por um bebê na sua barriga pra você ficar feliz de novo.” Eu e o Marcos estávamos vivendo um momento muito bom de nosso casamento, um momento de renovação. E aconteceu o que chamamos de “efeito Argentina”, porque eu estava numa fase de total envolvimento com a cultura latino-americana (sou barroca, lembram?) ouvia muito Mercedes Sosa, estava lendo muitas poesias da poeta Alfonsina Storni e não parava de ouvir “Un vestido y un amor” do Fito Paez. Então o Má teve que ir à Argentina a trabalho e fizemos grandes rituais de despedida e de reencontro, era nosso “sangue latino” falando alto. Engravidei novamente. O mais legal é que eu descobri a nova gravidez poucas horas antes de minha irmã me ligar avisando que estava em trabalho de parto, eu fui sua doula (foi um lindo parto domiciliar).
Foi muito grande a nossa alegria, mas, por causa da perda anterior, resolvemos ser mais cautelosos e esperar até as doze semanas para contarmos a novidade. Quem disse que agüentamos? A felicidade estava estampada em nossos rostos. Logo todos souberam da novidade. Pedrinho o tempo todo dizia que a irmãzinha dele estava chegando (ele tinha uma certeza de que seria uma menina que chegava até a assustar) o João também estava feliz por eu ter um bebê na barriga..
Assim como as anteriores, esta foi uma gestação muito tranqüila. Não fiz nenhum exame desnecessário e não quisemos saber o sexo (apesar de muitas vezes eu ter vontade de correr fazer um ultrassom para confirmar minha intuição de que seria uma menina).
Um fato curioso é que, aos seis meses de gestação, fomos ao show da Maria Rita e Mercedes Sosa e, para nossa surpresa, a primeira música que “la negra” cantou foi justamente “Un vestido y um amor”, não preciso dizer que choramos muito e o bebê dançava na barriga.

Decidindo pelas parteiras

Desejei que esse parto fosse um evento totalmente feminino e nada melhor que a presença de parteiras.
Conheci a Márcia Koiffman num dos encontros da Ana Cris quando estava grávida do meu segundo filho, a empatia foi imediata. E foram vários outros encontros (congressos, cursos de doula e festas) que contribuíram para nossa amizade. A Ana Cris é mais do que parteira, é minha amigona, minha doula, é minha “ídala”, impossível pensar em parto sem a presença dela. Além disso, também contaria com a presença da parteira Priscila, mulher alegre, empolgada com a vida, nos encontramos poucas vezes mas parecia que éramos amigas de longa data.
O pré-natal foi maravilhoso, a Márcia fez as consultas em casa, as crianças puderam participar, enfim, cada consulta virava uma grande festa.
Comprei para os meninos o livro da parteira mexicana Naoli Vinaver “Nasce um bebê, naturalmente”, o Pedro Gabriel ficou muito empolgado, dizia que ele iria ajudar a irmãzinha a nascer, que queria ajudar a parteira e que ELE é quem iria cortar a “cordinha” do bebê. Ele mostrava o livro para todos, é muito bonito ver o olhar da criança diante do sagrado.

Pródromos

Minha gestação foi ótima, sentia-me muito disposta, feliz, feminina. A única ansiedade que tive era de que minha mãe chegasse logo (ela mora em outra cidade). Para acrescentar um pouco de emoção, meu parto à prestação começou às 37 semanas. E mais uma vez os pródromos duraram mais de quinze dias. Só que, ao contrário do último parto, eles já não surpreenderam mais, eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Era tampão que saia, contrações que duravam a noite inteira e sumiam de manhã, enfim, o verdadeiro samba do criolo doido. Pelo menos serviram para minha mãe vir, afinal o bebê já dava sinais de que logo chegaria.

E chegou o grande dia!

Na noite que precedeu meu parto eu não consegui dormir direito, não eram apenas as contrações, fui tomada pelo medo por mim tão conhecido quando a hora de parir se aproxima. É um medo de morrer, é o medo do incerto. Acendi uma vela para Nossa Senhora do Bom Parto, rezei muito. Nessas horas eu sempre apelo para a Grande Mãe. Pedi à Virgem que me amparasse, que me desse a graça de mais um parto tranqüilo (não sou do tipo carola, mas tenho fé e certa intimidade com Nossa Senhora).
Acordei com contrações bem eficazes, avisei a Márcia mas sabia que o processo ainda poderia demorar. Tive então a idéia de fazer uns biscoitos gregos amanteigados, uma receita bem difícil, mas assim ficaria ocupada durante o dia. Pedi ao Marcos para ir comigo ao mercado para comprar os ingredientes. Lá, senti minhas primeiras contrações punks. Voltamos para casa com os ingredientes, eu tinha certeza de que não conseguiria fazer os biscoitos. Pedi para minha ajudante acelerar o almoço, queria estar “abastecida” para o TP. Liguei para a Ana Cris e para a Márcia, avisei que as contrações estavam doloridas mas ainda espaçadas. Depois do almoço entrei no chuveiro, fiquei sentada na bola. Mais contrações. Pedi para o Marcos avisar minha mãe e minha irmã. A Ana Cris teve um insight e ligou pra casa, o Má disse que a coisa estava engrenando. Era greve de metro e a cidade estava um caos, então todos resolveram vir para casa para evitar a hora do rush. Apesar de saber que estava em trabalho de parto, achei que teria o bebê só à noite. Também tive medo de ser alarme falso, afinal eu estava me sentindo tão bem, agüentava as contrações numa boa, nem parecia meus partos anteriores que eu queria me dar uma tijolada na cabeça.
Todos chegaram mais ou menos juntos: minha mãe (Tania) e meu paidrasto (Cláudio), minha irmã (Estrela), Ana Cris e Márcia (a Priscila não conseguiu chegar pois foi tudo muito rápido). O Pedrinho chegou da escola e me viu dançando no meio da sala (igual ao livro dele).
Arrumaram a cozinha para montar a enorme banheira inflável (eu queria ter um parto na água).
De repente, as contrações começaram a ficar apertadas. Me revezava entre o Marcos, Ana Cris e Márcia. Estava indo rápido demais, já sentia pressão. A banheira na cozinha ainda não estava nem na metade. Minha mãe, Cláudio e Pedrinho (que segurou a mangueira o tempo todo) iniciaram uma corrida louca para tentar encher a dita cuja.
Na sala, eu já sentia os puxos. A Ana Cris correu pegar a banqueta enquanto a Macia avisava tranqüilamente que não precisava mais encher a banheira, o bebê já estava chegando.
Eu já nem pensava mais em nada, entreguei-me ao momento mágico de parir. Sentia os movimentos do bebê dentro de mim. Sentia o corpo do Marcos me amparando. Era chegada a hora. A natureza agia mais uma vez. Que delícia mais uma vez sentir todo aquele turbilhão de sensações, aquele mergulhar dentro de mim mesma. Que maravilha poder sentir-me nascer novamente.
Círculo de fogo. Silêncio. Uma vontade enorme de fazer força. Ana Cris e Márcia me lembram de soprar, para o bebê sair suavemente e não lascerar. Faço um esforço imenso, sopro, respiro devagar... De repente: Unhéééééé. Nasceu. Meu bebê vem até meus braços. É uma menina!!! Minha menina!!! Meu presente das deusas!!!
Todos choram, todos riem, todos se abraçam. Meus dois filhos aparecem para conhecer a maninha. “Eu já sabia – grita Pedro Gabriel – Sabia que era minha irmãzinha”. É dele a tarefa de cortar o cordão e ele o faz com toda propriedade, como ele tinha desejado, igualzinho ao livro favorito dele. “Neném!” – exclama João Felipe tentando pega-la.
Ana Cecília nasceu numa tarde de agosto para trazer ainda mais charme e alegria à nossa família. Ganhei meu presente, nasceu minha princesa. Sou a mulher mais feliz do mundo.

sábado, 23 de agosto de 2008

Banho é bom...

João Felipe curtindo um banho de balde.

Parir - uma experiência barroca

(Dedico este texto a Bach, Vivaldi, Albinoni, Händel e Mozart, cujas músicas estiveram presentes durante toda a gestação e ajudaram-me nos momentos de ansiedade e angústia).

Enquanto relembrava o parto do João Felipe para escrever meu relato eu tive um insight: parir é uma experiência barroca, pelo menos para quem tem oportunidade de parir naturalmente.
O barroco é a sintaxe de elementos absolutamente diferentes colocados lado a lado, esses elementos se relacionam, se roçam eroticamente, ele vem da crise gerada não pela oposição, mas por uma nova construção. O barroco é tudo que se opõe ao mundo clássico, racional. É o sagrado dentro do profano.
Para o barroco sempre é possível agregar algo a mais àquilo que já existe, é a sensação de desperdício de forma, por isso o barroco é fundamentalmente erótico já que não economiza gestos.
O meu parto foi totalmente barroco, gritei o quanto quis, xinguei o quanto quis, fiz drama, achei graça e ri de mim mesma. É a fusão do divino com o erótico. Como coloquei no meu relato, eu iniciei o trabalho de parto com expressões religiosas: “Ai, meu Deus”, “Ai, Jesus”, “Ai, Nossa Senhora”, para logo em seguida utilizar palavras de denotação sexual “cara**”, “porra”, “cacete”, “p*q*p*”. Ora, e não é assim que também nos comportamos durante o ato sexual? Parir é uma experiência altamente erótica e sagrada.
Eu sou latina, venho de uma cultura mestiça, a América Latina é barroca em sua formação antropológica, andarilha e migrante.
Não é a toa que devemos re-aprender a parir com os índios, não é a toa que o vídeo da parteira mexicana, Naoli Vinaver, mexe tão profundamente conosco.
O rigor e a poupança é a base do mundo capitalista e tecnocrata. O barroco não se preocupa em poupar, ele extravasa tudo isso.
Que a sociedade capitalista espera das mulheres? Que elas sejam bem comportadas até quando estão parindo. Por isso deitam-nas, anestesiam-nas, amarram-nas e cortam-nas.
Eu sou completamente exagerada, sou livre, gosto dos excessos. O excesso é erótico já que é o contato dos cinco sentidos com o mundo.
Quem perde o contato com o mundo externo, com o barroco, é infeliz sem saber por que.

(Debora Regina Magalhães Diniz 25/01/2005)

João Felipe


Tudo começou após o meu primeiro parto, o nascimento do Pedro Gabriel foi, para mim, uma experiência transformadora, funcionou como catarse para que viesse à tona uma mulher que estava adormecida em mim. Após o parto senti que nascia também uma nova Debora, mais forte, mais madura, mais feliz. O Marcos, meu marido, também foi afetado pela visão do parto, ele, que já era um companheiro maravilhoso, ficou muito mais próximo a mim, parece que ele teve uma compreensão do que é a alma feminina. Estávamos mais unidos do que nunca, afinal, havíamos vencido uma batalha de titãs e eu havia conquistado o direito de parir, contrariando toda uma sociedade que, por estar desconectada da natureza, acredita apenas na tecnologia e em padrões estabelecidos e esquece-se do ser humano. Pedro Gabriel nasceu de parto natural, pélvico, de bunda para a lua.
Adorei parir, adorei ser mãe, tanto que, um ano depois, estava grávida novamente.
Da minha primeira experiência só tinha ficado um ponto negativo: a chatice que é um hospital. Dessa vez eu estava determinada a ter meu filho em casa.
Nessa época o Jorge Kuhn ainda não fazia partos domiciliares, eu e Ana Cris pensamos num plano: convidaríamos ele para um chá e quando ele chegasse eu estaria em pleno trabalho de parto. Mas não foi necessário, ele animou-se com a idéia e “achou” que faria sua estréia em partos domiciliares comigo (eu disse “achou”, porque a mulherada quando soube da notícia ficou animada e muitas passaram na minha frente e “estrearam” o Dr. Jorge).
Assim como da primeira vez eu tive uma gestação super tranqüila, nada de enjôos, nada de inchaços, engordei pouco, uma beleza. Não fiz ultras nem tomei vitaminas. Eu e o Má decidimos que não queríamos saber o sexo do bebê, seria uma surpresa.
Mas, se não tivesse emoção nessa gravidez eu não me chamaria Debora, a mulher que contraria as indicações de cesárea. Com 35 semanas senti que havia alguma coisa vazando, minha calcinha ficava molhada. Não era xixi, não era corrimento; era líquido amniótico, eu devia estar com uma ruptura de bolsa. Na hora pensei: “P*Q*P*, nada pode ser fácil para mim!” Liguei para o Dr. Jorge e para a Ana Cris que disse que poderia ser um “furinho” (lindo eufemismo) na bolsa e que ela sabia de casos que fechava (eu confiei nas palavras dela, mentalizei e desejei profundamente que o meu “furo” iria fechar). Não queria ir para um hospital de jeito nenhum. A essa altura eu já tava querendo brigar com Deus: “Why me?” Ele deve ter respondido: “Por que senão não teria graça! Eu brinco com vc para testar seu empoderamento e seu bom humor.”
E não é que, depois de 3 dias, o vazamento parou? Não, ainda não foi dessa vez.
Então, num domingo depois do almoço eu comecei a sentir contrações mais fortinhas, eu estava preste a completar 38 semanas. Eu e o Marcos monitoramos para ver se havia uma regularidade: estavam vindo de 15 em 15 minutos. “Acho que estou entrando em TP” – falei. Então resolvemos avisar a Ana Cris que estava num parto com a equipe do Dr. Jorge. Combinamos que ela viria em casa à noite. Liguei para minha mãe, eu queria que ela estivesse presente no meu parto. Ela é uma pessoa maravilhosa, conectada com a natureza, nossa relação vai além da mãe-filha. Minha mãe teve três partos normais e sempre apoiou minha decisão em ter partos naturais. Entretanto, quando eu nasci ela sofreu todas as intervenções e maus-tratos tão comuns dados à uma mulher inexperiente que chega ao hospital em início de TP. Ela tinha 19 anos, estava sozinha, éramos apenas nós duas contra o sistema. Então, esse meu parto seria um resgate, para nós duas, do meu nascimento, seria a nossa revanche.
O intervalo entre as contrações foi diminuindo. A Ana Cris chegou em casa. Então as contrações chegaram a 5 em 5 e estacionaram... O TP não foi pra frente nem pra trás. Todos foram embora. E foi assim que se iniciou o meu TP à prestação (ou como disse alguém da lista: o TP Casas Bahia, com as prestações mais longas da praça). Foram mais de 10 dias de pródromos em que tudo acontecia: contrações que aumentavam e diminuíam, perda de tampão, sangramento devido à dilatação do colo do útero, mas nada do trabalho de parto engatar.
Era a natureza brincando comigo novamente, mostrando que não há regras, não existe um modelo. Cada parto é um parto. È por isso que tantas mulheres são violentadas com cesáreas, porque se espera um padrão, não acreditam no parto, acreditam em números.
Mas como querer que o Divino encaixe-se num padrão? È um capricho humano idiota querer controlar a natureza.
Eu ia tentando conter a ansiedade, aproveitei para arrumar as coisinhas do bebê, fiz bastantes rituais, namorei, namorei...
Na quarta-feira (19/01) eu e o Marcos resolvemos tirar o dia só para nós, fomos passear. Andamos bastante, conversamos, comemos (Nossa... como eu comi nesse dia, parecia que eu estava adivinhando que precisaria de energia extra). À noite decidimos colocar nossas melhores roupas e sair com a família (eu, Má, Pedrinho e bebê na barriga), fomos jantar. Foi uma noite muito especial. Quando chegamos em casa eu sentia-me exausta, o Má ficou com o Pedrinho e eu fui dormir (bem mais cedo que o habitual).
À 1:47 da madrugada acordei com uma forte contração, intuitivamente apertei a mão do Marcos que acordou. Eu estava tão bêbada de sono que não sabia dizer se era TP ou indigestão hehehehe.
Levantamos. Logo, outra baita contração. Falei para o Má: “Agora é!”. Mas ele ainda estava desconfiado por causa dos falsos TPs (é o que eu digo, parece a história do “é o lobo, é o lobo”, quando o lobo aparece ninguém acredita) ele disse: “Vamos ver, se vc tiver mais umas três dessas eu ligo para todo mundo”. Eu estava sem credibilidade, mas, para salvar minha moral, vieram mais três contrações que me fizeram querer bater nele. Então ele acreditou e fez as ligações.
Logo todos estavam aqui em casa: Ana Cris, Jorge Kuhn, Mema, Andréa, minha mãe (Tânia) e meu padrasto (Cláudio).
Eu planejava ter o bb no quarto, mas o Pedro estava dormindo, então a sala foi o local escolhido.
As contrações vinham fortes, não conseguia ficar parada. Então resolvi dançar, dancei com o Marcos, com minha mãe, com a Ana Cris, com a Mema... Tudo estava indo rápido, logo comecei a sentir os puxos. Eu estava ficando cansada, puseram a cadeira de cócoras para eu sentar. A Ana Cris ficou na minha frente e o Marcos ajoelhou-se para segurar minha mão. A cada contração eu buscava o seu olhar, era como um guia para eu não mergulhar no descontrole.
Nas primeiras contrações eu estava com uma garotinha recatada, era só “Ai, meu Deus”, “Ai, Jesus”, “Ai, Nossa Senhora”. Depois minha boca estava tão suja quanto a de uma meretriz, eu gritava “P*q*p*”, “Cara***”, “Cace**”, a certa altura eu berrei “P*q*p*, Ana Cris, eu tinha esquecido como essa porra dói!”
Eu sentia vontade de fazer força, mas a dilatação ainda não estava completa. A bolsa ficava aparecendo (que coisa linda! Translúcida...) Pedi para filmarem. Aliás, não sei onde consegui arrumar neurônios para, em pleno TP, tentar organizar o pessoal. Lembrei que alguém precisava filmar e fotografar, pedi para apagarem a luz e trazerem um abajur, mostrei para a Andréa onde desligar o ventilador. Só a dona da casa para organizar seu próprio parto hehehe.
Voltando ao parto: eu tinha vontade de fazer força, mas a dilatação ainda não estava completa, eu também estava ficando cansada, então o Dr. Jorge sugeriu que eu fosse para o chuveiro. Puseram o banquinho e eu fiquei embaixo d’água. A água quente é uma benção para uma mulher parindo, que delícia, que alívio...Eu não queria mais sair de lá. (Nunca planejei meu parto no banheiro, mas é tão óbvio. Afinal o banheiro é o local mais adequado às coisas fisiológicas) A Ana Cris e o Marcos se revezavam. Até que chegou o momento em que eu não quis mais gritar nem reclamar. Voltei-me para dentro de mim, concentrei-me no meu bebê, fui para a “partolândia”. Apenas respiro e faço força. Sinto todo o meu corpo se abrindo, respiro, éramos apenas eu e o bebê, faço força, eu sabia que faltava pouco.
Num breve instante abro os olhos, vejo minha mãe e a Ana Cris em frente a mim. Três mulheres, uma tríade feminina. Escuto minha mãe falar sobre o valor de se resgatar um parto. Mais uma força. Sinto o anel de fogo. Fecho os olhos, procuro respirar profundamente.
Quando abri os olhos o banheiro já estava cheio, o Dr. Jorge estava sentado abaixo de mim. Entre as pessoas procuro o Marcos. Ele estava lá, apreensivo, emocionado. Mais uma força e sinto meu bebê saindo (no vídeo eu vi que ele estava com uma circular de cordão que foi facilmente retirada). Imediatamente ele foi colocado nos meus braços. Só consigo dizer “Aahh... bebê, meu bebê...” Tento decorar cada pedacinho dele, lembro de olhar o sexo: “É menino!” O Marcos entrou no box, nos abraçamos, nos beijamos. Continuo conferindo cada pedacinho, até que percebo que ele tem seis dedinhos num pé (o Marcos tem seis dedos em cada pé). Eu disse: “Má, tem seis dedinhos!” Resolvi contar os dedos das mãos, seis em cada. “Na mão também!” Essa foi a nossa surpresa, não achamos ruim, pelo contrário, ele trazia a marca do pai dele. Esse é o milagre da vida, é quando percebemos nitidamente que os nossos filhos são a extensão de nós mesmos. Nesse momento o Marcos não conseguiu controlar a emoção e se desmanchou em lágrimas. Minha mãe também chorava, estava vingada. Pedi para ela trazer o Pedro que já havia acordado e estava brincando com o “bobô” (o avô dele). Assim que viu o bebê ele abriu um baita sorrisão e gritou: “Ne-ném!” (Como quem dá boas vindas a alguém muito esperado). Ficamos os quatro espremidos no box minúsculo, era a nossa família aumentando. O Marcos cortou o cordão. João Felipe, meu bebezinho, finalmente estreou para o mundo, uma estréia gloriosa!

Debora Regina Magalhães Diniz (SP, 25/01/2005)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

"Ói nóis aqui"


Banho é bom...


Pedrinho e seu ofurô.

Relato do Papai


Ainda hoje quando fecho os olhos tenho a sensação que estou no momento do nascimento de Pedro Gabriel, essa emoção guardarei para o resto da minha vida, não só pelo fato de ser meu primeiro filho, ou pelas dificuldades que enfrentamos, mas, principalmente, porque quando nos tornamos "pai", colocamos em nossas mãos toda responsabilidade da vida de um outro ser humano, uma pequena pessoa que é parte de você e da mulher que você ama. Quando começamos um relacionamento sonhamos em casar, ter filhos e aí o tempo passa, muitas coisas acontecem, muito mais boas do que ruins, então chega o dia em que você fica sabendo que vai ser pai, para mim foi a principal realização depois do meu casamento, que me deixou imensamente feliz e com uma enorme satisfação. Quando abri o exame e li "POSITIVO", uma vida inteira passou pela minha frente, foram apenas minutos até eu chegar ao carro onde estavam minha irmã Adriana e a Debora, mas, nestes poucos e intensos minutos, pensei em muita coisa, primeiro na minha esposa, como seria o nosso primeiro filho, como ela iria ficar feliz e como seria sua vida daqui pra frente, a transformação do seu corpo, a barriga crescendo, depois pensei na minha família, minha mãe, como seria um outro neto, minha irmã e o meu sobrinho, como seria a reação deles, de felicidade é claro, mas como seria.... Lembrei no meu avô de 94 anos, como queria ele participasse do crescimento do bebê, e, por incrível que possa parecer, pensei muito no meu pai, que mal pude estar junto ao longo que quase 30 anos, pensei na frustração que tive durante anos de nunca falar a palavra "meu pai", e agora era a minha vez de dizer " Meu filho". Durante aqueles poucos minutos, foi em tudo isso que pensei, e também as dificuldades financeiras pelas quais estávamos passando. Mas tudo isso seria muito pequeno perto da emoção e riqueza de se ter um filho. Nesse momento eu já torcia para que fosse um menino, mas sou muito tranqüilo com isso, poderia ser uma menina que ficaria com imensa alegria. Ao longo da gravidez, fui acompanhando a Debora em todas as consultas, e tudo que fosse relacionado com a nossa gravidez, me sentia "grávido" junto com ela, quis ser participativo e opinativo na gravidez. Durante todo esse período, fui carinhoso, atencioso, fiz massagem, passei creme na barriga dela, saí de madrugada para comprar tomate, sorvete de Pistache, quindim... A participação da nossa família foi muito importante, apoiaram de todas as formas, exagerados ou não, a ajuda deles foi essencial. Com a graça de Deus, tivemos a oportunidade de conhecer pessoas totalmente "do bem", pessoas que nos fizeram acreditar que vale a pena correr atrás dos sonhos. Primeiro foi a Ana Cris, me apaixonei pelo seu trabalho e pelo seu talento desde o primeiro momento, seu curso de preparação para o parto foi fundamental na nossa decisão em ter um parto natural. Depois veio o Dr. Jorge que fez todo o sonho acontecer, uma pessoa que de tão sincera e honesta como poucas, um verdadeiro amigo, a Dra Andréa, que tive pouco contato, mas vi em seu rosto toda a expressão de felicidade por ter participado de um "evento" tão importante para todos, e, por último, a querida Marília, que me lembrava tanto a minha querida avó, seu jeito calmo, sereno, fico sem palavras para descrever a força que ela tem. Quando meu filho veio ao mundo, tudo o que fazia era agradecer a Deus por esse momento de felicidade, uma garra e uma vontade de vencer foi me consumindo. A sensação do nascimento de um filho renova os pais, hoje me sinto realizado. A cada dia admiro e amo mais minha esposa, minha família, o Pedro é realmente muito importante na minha vida, tive uma oportunidade única. Dizem que no início, quando a mãe amamenta seu filho, trocam olhares que só uma mãe e filho fazem, um momento de conhecerem um ao outro, de aproximação, criam laços nunca mais desfeitos. Eu também tive essa experiência pois a Debora teve que voltar a trabalhar antecipadamente e eu é que dou a mamadeira (leite do peito) nos dias em que ela sai, é linda a forma como o Pedrinho me olha e faz carinho com suas pequenas mãos. "Sou um homem muito feliz."

Marcos Paulo Diniz(Junho/2003)

Nascimento do Pedrinho


RELATO DO NASCIMENTO DE PEDRO GABRIEL 30/03/2003

Para aqueles que ainda não me conhecem, meu nome é Debora Regina, sou professora de literatura, tenho 27 anos e estou casada com Marcos, 29, há quatro anos. Começamos a namorar na escola, eu com 15 e ele com 17, portanto, estamos há 12 anos juntos (sim, ele foi meu primeiro e único, sabem aquela música Solamente una vez).

Nós adoramos crianças e sempre tivemos vontade de ter um filho, mas, nos dias de hoje, faltava-nos um pouco de coragem. Então eu ia adiando: "quando eu terminar a faculdade...", "quando eu terminar a pós...", "quando eu terminar o mestrado..." e quando eu já ia dar a desculpa do doutorado veio o destino e disse: pó pará! Em junho do ano passado esqueci de tomar o anticoncepcional, não dei muita importância, pois, como eu já usava esse medicamento por quase dez anos achei que deveria estar de hormônios até as orelhas. Ledo engano... No dia 30/07/02 fiz o teste de gravidez, o Marcos foi buscar. Quando o vi chegando com um baita sorriso já imaginei o resultado. Naquele momento senti uma mistura de pânico com uma alegria imensa, só conseguia pensar "não tenho plano de saúde". A alegria venceu, afinal íamos ter um bebê. A família fez a maior festa, todos estavam entusiasmados. O médico da família: Eu e o Má sempre fomos a favor do parto normal, mas, como eu não conhecia nenhum obstetra me consultei com um indicado pela minha tia. Logo de início ele solicitou uma bateria de exames, ultrassom, receitou vitaminas, e passou uma lista de proibições: sexo não é bom, cápsula de alho não pode, floral de Bach não é bom... Começamos a achar aquele japonês meio estranho. Ele falou para nós fazermos um pacote de parto em um hospital da região e foi o que fizemos.

Quando eu estava com 4 meses tive uma infecção urinária, aí ele ficou radiante: proibido o sexo! E ainda soltou a pérola "ela não pode, mas você (Marcos) está liberado" (quanta delicadeza...) Em outra consulta, além de me confundir com outra paciente, ele disse que parto normal era muito legal, mas só se estivesse TUDO certo. Acredito que, no Brasil, muitas grávidas passam pela situação de O médico e o monstro, no princípio eles são como Dr. Jeckyl: bacanas, atenciosos, favoráveis ao parto normal, e, quando se aproxima o final da gestação, se transformam em Mr. Hyde, inventam inúmeros problemas para nos convencer a fazer cesárea. O japonês era esse tipo.

Sendo eu uma grávida de primeira viagem um monte de gente começou a palpitar sobre o que eu tinha que comer, o que eu tinha que fazer, etc, etc, etc... Resolvi dar um basta, como eu queria me manter saudável física e psicologicamente comecei a pesquisar tudo sobre gestação, comprei livros, revistas, fiz pesquisas na internet, até que conheci os sites das Amigas do Parto e Doulas, para mim, foi uma luz no fim do túnel. Com 20 semanas eu e o Marcos fomos fazer o curso de preparação para o parto com a Ana Cris, Geórgia e Dorothe, descobrimos a diferença entre parto normal e parto natural/humanizado. Decidimos que o bebê viria ao mundo da maneira mais natural possível. Conhecemos a Casa de Parto.

Então, com 24 semanas gestação decidimos mudar de obstetra, cancelar o hospital e ter o acompanhamento de uma doula (Ana Cris). Tudo corria muitíssimo bem, descobrimos que o bebê era um menino, escolhemos o nome (Pedro Gabriel), minha saúde e a do bebê estavam ótimas, a médica era bacana, o negócio era só ter paciência e esperar. Até que...

Com 34 semanas eu fui fazer uma ultra e verificou-se que o bebê estava sentado. Ficamos preocupados, mas até então ainda tinha tempo para ele virar. Comecei a tomar homeopatia e fazer exercícios (ficava quase de ponta cabeça apoiada na tábua de passar roupas). Nada. Com 37 semanas já estava ficando nervosa, meu sonho de ter um parto natural na Casa de Parto estava se desfazendo, afinal, bebê pélvico é indicação certa de cesárea, mesmo assim não desistia de tentar tudo para ele virar, fui fazer moxa e tomava água da garrafa verde (cromoterapia) até não agüentar mais. Diziam para eu conversar com o bebê, eu pedia, conversava, implorava... cheguei ao ponto de exigir que ele virasse imediatamente, mas nada, ele continuava sentadinho.

Apenas os familiares mais próximos sabiam da situação, para todas as outras pessoas dizíamos que tudo estava correndo bem (para não escutarmos coisas do tipo: "Ih, não virou? Vai ter que ser cesárea!") Minha sogra dizia que minha barriga ainda estava muito alta, que tinha tempo; minha mãe falava para eu me acalmar, confiar na natureza, que quando mudasse a lua ele virava. A lua mudou, minha barriga baixou e, nada.

Com 38 semanas comecei a surtar, ligava para a Ana Cris 200 vezes ao dia. Todos estavam empenhados para fazer o bebê virar: a Dorothe fez moxa, a Geórgia fez moxa, o Marcos aprendeu a fazer moxa (meus dedinhos dos pés ficaram completamente chamuscados), eu fazia rituais, pedi ajuda para o universo, fiz promessa para N. Sra do Bom Parto, para a Desatadora dos Nós. Fomos em uma médica que tentou virar o bebê com acupuntura e massagem e... NADA.

Saí do consultório chorando... Não poderia ir para Casa de Parto, não tinha dinheiro para pagar hospital e médico, meu sonho estava indo por água abaixo e só de imaginar que eu seria cortada já me davam arrepios. Foi então que a Ana Cris disse: "Que tal tentarmos a versão externa? O Dr. Jorge Kuhn faz".Eu e o Má nos olhamos, será que deveríamos tentar? Será que a Ana Cris não estava delirando? Deveríamos confiar? Comecei a pesquisar tudo sobre versão externa, confesso que fiquei com um pouco de medo, havia riscos, mas os olhos azuis da Ana Cris e suas palavras de ânimo me traziam confiança. Marcamos a versão para o dia que eu completaria 39 semanas.

Foi então que eu comecei a ter uns sonhos muito loucos, sonhava com o meu parto e que o Pedrinho nascia pélvico, eram sonhos muito reais. O Má sonhou que o Dr. Jorge e o Dr. Dráuzio Varela (?!) tiravam o bebê, viravam pelo lado de fora e colocavam dentro de mim de novo na posição certa(rs). A essa altura a minha obstetra, que não tinha gostado muito da história fazer a versão (mas concordou porque sabia da capacidade do médico), já falava com convicção: "É a última tentativa, se o bebê não virar vê se não vão inventar moda, hein!"

Fui fazer a versão externa em um hospital público no mesmo dia em que a Ana Cris dava o curso para doulas. Chegamos ao hospital meio apreensivos, eu tive que me separar do Marcos para me preparar, foi então que o Dr. Jorge Kuhn se apresentou, ele transmitia tanta segurança que meu medo passou. Logo ele foi buscar o Marcos. A tentativa de versão foi feita numa sala onde mais três mulheres estavam em trabalho de parto, eu me sentia uma cobaia de laboratório: além do Dr. Jorge havia mais dois médicos, vários residentes, as aspirantes a doula (Socorro Moreira e Patrícia Merlin), a Ana Cris (tirando fotos) e as parturientes me olhando. Foi muito dolorido, e o pior, o bebê não virou.

Caí em prantos, entrei em desespero "Meu Deus, por que comigo? Tantas mulheres fazendo cesárea sem necessidade, e eu que quero tanto um parto normal não posso tê-lo?" Foi então que o Dr. Jorge (talvez por dó em ver minha decepção) disse baixinho: "É possível fazer um parto pélvico". Aquela frase soou como música para meus ouvidos, ainda restava uma última chance (por menor que fosse). O plantonista que me deu alta disse: "Você é corajosa, passar por tanta dor só porque você quer sofrer mais!" (Sofrer... palavra estranha para designar um parto).

Naquela noite eu e o Marcos dormimos abraçados e chorando muito. No dia seguinte liguei para o consultório da minha médica para falar do resultado, a secretária me disse friamente que era para eu conversar durante a consulta (que seria dali a dois dias), achei um absurdo o descaso, eu e o Má nos olhamos (cúmplices): "Vamos procurar o Dr. Jorge." Liguei para a Ana Cris que adorou a idéia. Enquanto isso, muitos pressionavam para marcarmos logo a cesárea.

Como explicar que, no fundo, eu tinha esperança de um parto normal, podem me chamar de romântica, mas eu queria ter a surpresa, não saber ao certo quando o Pedrinho nasceria, estar comendo pipocas e sentir as contrações, queria a correria e não uma cesárea marcada, fria, burocrática, tecnocrata...

Minha sogra questionava: "quem é essa Ana Cris que põe essas idéias doidas na cabeça de vcs? E esse Dr. Jorge? Vcs estão loucos, mudar de médico na última semana de gestação!!!" Minha irmã caçula, Estrela, implorava: "Faz logo a cesárea e tira esse bb daí!" O amigos estranhavam: "Ainda não nasceu? O que vcs estão esperando para fazer a cesárea?" Nós não respondíamos nada, para evitar o estresse.

Quando chegamos ao consultório, o Dr. Jorge tomou um susto: uma grávida de 39 semanas pedindo para ele fazer o parto de um bb pélvico, se possível, parto normal. Não sei como, mas ele topou a loucura. Para que tudo desse certo seria preciso que eu chegasse ao hospital já em trabalho de parto e ninguém poderia saber da posição do bb. Para isso precisaríamos da ajuda da parteira Marília, que ficaria comigo em casa até o momento limite para irmos ao hospital. Tudo combinado.

Quando eu completei 40 semanas fui à consulta e estava tudo bem comigo e com o bb, porém o aparelho de medir a pressão estava quebrado, eu iria medir a pressão no dia seguinte no posto de saúde. A essas alturas minha família estava surtando, diziam que o bb estava passando da época, se o médico havia dito a data que o bb iria nascer, eu respondia rindo: "O bb não vai passar, ele não vai nascer queimado; eu fui ao médico, não há uma consulta com a mãe Dinah".

No dia seguinte, fui ao posto medir a pressão: estava 15 x 10. Ligamos para o Dr. Jorge, a pressão estava alta, existia suspeita de pré-eclâmpsia. Senti uma contração forte. A Ana Cris e a Marília foram para minha casa, nada da pressão abaixar. Dr. Jorge pediu que fôssemos ao hospital fazer exame de proteinúria.

Fomos ao hospital no final da noite, enquanto aguardávamos o resultado fomos jantar num restaurante japonês. A Marília a toda hora dizia que eu não estava com cara de quem está com pré-eclâmpsia. O resultado do exame dizia que a taxa de proteína estava alta. Comecei a chorar compulsivamente, eu era mesmo uma azarada, tudo tinha que acontecer comigo, só podia ser castigo... Marília tentava me animar, dizia que Deus não ia me desamparar e que era para eu confiar.

O Dr. Jorge mandou que eu fosse ao hospital onde seria o parto para fazer uma sulfatação. Eu iria ficar sozinha no hospital, comecei a entrar em pânico. Comecei a rezar e a tomar floral de golada. Novamente tiraram minha pressão que, para nossa surpresa, baixou para 13 x 11. Marília ficou contentíssima, "eu sabia", ela dizia. Ana Cris ligou para Dr. Jorge e o convenceu a me liberar. Fomos todos dormir.

No dia seguinte, pela manhã, fui medir a pressão que estava 11 x 7. Fiquei feliz da vida, porém, no final da tarde, ela voltou a subir, chegou a 16 x12. Eu pensava a todo instante "Vou morrer" (só depois do parto eu descobri que, realmente, eu iria morrer, mas era psiquicamente. Eu deixei morrer a Debora-filha para deixar nascer a Debora-Mãe). Dr. Jorge disse que o melhor que eu tinha a fazer era tomar um calmante natural e dormir.

Naquela noite minha irmã, Dani, veio em casa, eu chorava deitada na cama e o Marcos chorava sentado no chão, num canto do quarto. Ela ficou nervosa com a cena e telefonou para Ana Cris que tentou acalmá-la. Então chegamos à conclusão de que não deveríamos nos abater, tudo daria certo. Começamos a conversar, contar piadas e, a certa altura, eu já estava bêbada de sono devido ao calmante e dormi no meio de uma história de um galho (???) que eu contava (a Dani e o Má tiram sarro de mim até hoje).

No dia seguinte (29/03/03) eu me sentia bem melhor, às 8h comecei a sentir contrações a cada 5 minutos. O Marcos avisou a Ana Cris, Marília e Dr. Jorge. Elas chegaram em casa lá pelas 10h. Foi feito o exame de toque, estava com 1cm de dilatação. Até então era só diversão, as contrações não eram tão doloridas, dava para conversar, contar piadas. Na hora do almoço estava morrendo de fome e comi um pratão de macarronada.

Foi então que, não sei se por efeito do macarrão, que a dor começou a piorar. A Marília fez outro exame de toque e então a bolsa estourou. Aí a coisa começou a esquentar, acabou minha vontade de contar piadas, eu só sentia dor, dor, dor. Fomos para o hospital, pega mala, pega bolsa, pega floral (esqueci as lembrancinhas e o enfeite da porta).

No caminho para o hospital vou xingando a prefeita a cada buraco que o carro passa. O Marcos errou o caminho, toca fazer um retorno. Já estava ficando vesga de dor. Quando chegamos ao hospital a Marília pediu para eu disfarçar para não chamar muito a atenção, a Ana Cris e o Dr. Jorge esperavam na recepção. Eu entrei tentando fazer uma cara de "está tudo bem".

Na recepção sinto uma contração fortíssima e agarro a Ana Cris que me faz massagem nas costas. As grávidas, que também aguardavam na recepção (para suas devidas cesarianas), ficam alvoroçadas para saber o que estava acontecendo (parto normal é coisa rara) e quem era aquela moça que fazia massagem, eu, em pleno trabalho de parto, tento explicar mais ou menos o que é uma doula. Ouço uma grávida dizer: "Ah, eu também quero..."

Tudo liberado, pedem para eu e o Dr. Jorge subirmos (sei lá para que, a dor era tanta que eu esqueci algumas coisas), quando eu vi o tamanho da escadaria que eu tinha que subir fazendo cara de "tudo bem" (no hospital não podiam saber que o bb estava pélvico, senão já viu. Além disso, era preciso que eu não tomasse anestesia.). Respirei fundo e comecei a subir os degraus. A cada degrau uma pontada. Entramos numa salinha, a enfermeira embaçava, pediu um monte de dados, o Dr. Jorge, impaciente, perguntou se ele não poderia preencher os formulários no quarto, ela fingiu que não ouvia. Eu tinha vontade de gemer, de gritar, de mandá-la para a P.Q.P., mas não podia. Ela perguntou se podia me levar para fazer a raspagem dos pêlos e a lavagem intestinal, Dr. Jorge disse que não era necessário, ela arregalou um baita olho e respondeu: "o Sr. é quem sabe..."

Entramos no quarto, estavam lá o Marcos, a Ana Cris, a Marília, Dani e Estrela, o pessoal do hospital não entendia nada, afinal o normal é ir direto para a sala de pré-parto. Deitei na cama, estava com 6 cm de dilatação. Foi feito o monitoramento. A essas alturas eu gritava de dor e, claro, pedi qualquer coisa para aliviar. Aplicam Plasil (que não adianta nada). Fui então para o chuveiro. A Ana Cris começou a tirar a roupa (será que vai virar a mulher-maravilha?), ela estava com um biquíni por baixo (êta mulher preparada!). Ela entrou no box junto comigo e fez massagem.

Então ela, tentando me distrair, perguntou: "Qual foi o dia mais feliz da sua vida?" Eu, meio delirando de dor, lanço o seguinte: "Você quer mesmo que eu responda?" Eu estava morrendo de dor e ela ainda queria que eu lembrasse alguma coisa? Ainda assim eu falei do dia do meu casamento. Passado algum tempo ela estava cansada e pediu para o Marcos entrar e fazer massagem, ele arrancou a roupa e ficou de cueca (imaginem a cena) só que, na correria, fizemos a minha mala e esquecemos de fazer a dele, ou seja, ele assistiu ao parto com a cueca molhada (rs...).

Ficamos abraçados embaixo d'água, ele me fazia carinho, dizia que me amava, para eu ser forte, que logo nós estaríamos com nosso filhinho nos braços. Eu estava ficando cansada, queria dormir e só acordar quando o Pedrinho estivesse nascendo, a todo momento eu perguntava: "ainda falta muito?" A dor aumentava cada vez mais, a certa altura eu já estava urrando (um visitante que estava no quarto ao lado veio ver o que estava acontecendo pois meus gritos estavam alarmando todas as mães (de cesárea) do corredor).

Num momento de extrema dor pedi para me darem algo, uma porrada e, como ninguém me obedeceu, eu mesma fiz o serviço e me dei vários tapas na cara. Então a Marília resolveu agir e me disse numa voz bem séria: "Você já chegou até aqui, agora falta pouco. Se você continuar assim vai aparecer alguém para te dar uma anestesia e aí vai ser cesárea, você quer?" Fiquei com vergonha do meu papelão, e voltei a me concentrar, caí na real. Foi então que chegou a cadeira de rodas para me levar ao centro obstétrico, ao chegar lá fui recebida com sorriso pela Dra. Andréa, assistente do Dr. Jorge.

Eu continuava pedindo alguma coisa para aliviar a dor (baixinho, para o anestesista não ouvir). Aplicaram-me uma dose mínima de Dolantina, o efeito foi mais psicológico, eu consegui me concentrar mais. Fiquei de cócoras, ora apoiada pela Ana Cris (abraço gostoso...), ora apoiada pelo Marcos. De quando em quando aparecia alguém do hospital para ver aquela cena inusitada, uma mulher de cócoras no chão do C.O. que se recusava a tomar anestesia. Sentia um baita calor, o Má arranjou uma tampa de tuperware para me abanar. Tive sede, o anestesista proibiu a enfermeira de me dar água, nós ignoramos a ordem (não íamos precisar dele mesmo).

De repente, um celular toca Besame mucho, era a esposa do Dr. Jorge querendo saber se estava tudo indo bem, ela também estava na torcida. Depois me colocaram na cama e eu fiquei de lado. A certa altura a Dra. Andréa falou: "Que lindo, já dá para ver o bumbunzinho!" Eu fiquei super emocionada.

Então me colocaram na posição tradicional. Eu não sentia mais tanta dor, apenas uma vontade enorme de fazer força, força, força... A Ana Cris falava para eu relaxar, eu obedecia; a Drª Andréa falava para eu fazer força só na barriga, eu obedecia; a Marília falava para eu soltar o corpo como se fosse uma boneca, eu obedecia; o Dr. Jorge me orientava para ora segurar o ar, ora soltar, eu obedecia. O Marcos me beijava, me abanava, rezava...

Várias pessoas começaram a entrar na sala. O Dr. Jorge pediu para a Marília segurar minha barriga para o bebê não virar pescoço. De repente todos ficaram em silêncio, eu sabia que faltava pouco. Comecei a fazer ainda mais força e a pedir a Deus que meu filho nascesse bem.

Então meu corpo começou a tremer, senti um calor inexplicável, era uma energia imensa que entrava pela minha cabeça e saía entre minhas pernas. Então senti o Pedrinho saindo... Nasceu!!! Silêncio... "Será que está tudo bem?" Foi então que escutei um chorinho, era ele, o meu filhinho...

Todos nós acompanhamos o choro do nenê e também choramos. Havia no olhar do Marcos um brilho que jamais esquecerei. Colocaram o bebê sobre mim que me olhou com aquela carinha linda, todo enrugadinho... Eu apenas consegui dizer: "Bem vindo ao mundo, meu anjo. A mamãe te ama muito". Agradeci a Deus, a N. Sra, ao universo, ao Marcos por ser um companheiro maravilhoso, à equipe de anjos (Ana Cris, Marília, Dr. Jorge, Drª Andréa) que permitiram que eu realizasse meu sonho. Sentia-me realizada, a mulher mais poderosa do mundo. Ter um filho, para mim, foi algo sagrado.

Nós, mulheres, somos seres abençoados. Símbolo de fertilidade, doamos à humanidade o leite (de nossos seios) e o mel (de nosso afeto). Gerar uma vida é um prazer inenarrável, indefinível, afinal, para que explicar "o mistério das coisas deste mundo?" (Drummond)

Pedro Gabriel Magalhães Diniz nasceu no dia 30/03/03 à 00:45 h, de parto normal, pélvico. É um bebê calmo, saudável. Minha recuperação foi super rápida. Gostamos de ficar os três deitados na cama, abraçados. De vez em quando ele olha para nós e dá um sorrisão. A vida não é maravilhosa? Com relação ao parto muita gente me achou vitoriosa, batalhadora, guerreira, alguns me chamaram de egoísta ("onde já se viu arriscar a vida de um filho para ter um parto normal a qualquer preço só para ficar bem depois"), outros me acham louca ("querer sofrer, sentir dor, num parto normal).

Aos que me acham egoísta digo que fui egoísta no sentido de querer me preservar, estar bem para poder me dedicar inteiramente ao meu filho. Àqueles que me chamam de louca, respondo com a música dos Mutantes: "mais louco é quem me diz que não é feliz... EU SOU FELIZ!"
Debora Regina Magalhães Diniz (SP, 25/05/2003)