
O Nascimento de Ana Cecília
Sonhos
Numa noite, há pouco mais de um ano, eu desejei uma menina. Eu já tinha dois meninos e com eles aprendi muito sobre o universo masculino, mas, de repente, senti que precisava de alguém para partilhar experiências do feminino. Foi então que eu sonhei que abraçava e beijava uma grande deusa, lembro que essa deusa possuía uma vagina gigante, como se estivesse parindo. Pouco depois descobri que estava grávida. Infelizmente eu tive um aborto espontâneo e o processo foi muito difícil e doloroso para mim. Fiquei um bom tempo deprimida. Um dia, o meu filho, Pedro Gabriel (com 3 anos na época), disse: “Você está triste? Peraí que eu vou falar pro papai por um bebê na sua barriga pra você ficar feliz de novo.” Eu e o Marcos estávamos vivendo um momento muito bom de nosso casamento, um momento de renovação. E aconteceu o que chamamos de “efeito Argentina”, porque eu estava numa fase de total envolvimento com a cultura latino-americana (sou barroca, lembram?) ouvia muito Mercedes Sosa, estava lendo muitas poesias da poeta Alfonsina Storni e não parava de ouvir “Un vestido y un amor” do Fito Paez. Então o Má teve que ir à Argentina a trabalho e fizemos grandes rituais de despedida e de reencontro, era nosso “sangue latino” falando alto. Engravidei novamente. O mais legal é que eu descobri a nova gravidez poucas horas antes de minha irmã me ligar avisando que estava em trabalho de parto, eu fui sua doula (foi um lindo parto domiciliar).
Foi muito grande a nossa alegria, mas, por causa da perda anterior, resolvemos ser mais cautelosos e esperar até as doze semanas para contarmos a novidade. Quem disse que agüentamos? A felicidade estava estampada em nossos rostos. Logo todos souberam da novidade. Pedrinho o tempo todo dizia que a irmãzinha dele estava chegando (ele tinha uma certeza de que seria uma menina que chegava até a assustar) o João também estava feliz por eu ter um bebê na barriga..
Assim como as anteriores, esta foi uma gestação muito tranqüila. Não fiz nenhum exame desnecessário e não quisemos saber o sexo (apesar de muitas vezes eu ter vontade de correr fazer um ultrassom para confirmar minha intuição de que seria uma menina).
Um fato curioso é que, aos seis meses de gestação, fomos ao show da Maria Rita e Mercedes Sosa e, para nossa surpresa, a primeira música que “la negra” cantou foi justamente “Un vestido y um amor”, não preciso dizer que choramos muito e o bebê dançava na barriga.
Decidindo pelas parteiras
Desejei que esse parto fosse um evento totalmente feminino e nada melhor que a presença de parteiras.
Conheci a Márcia Koiffman num dos encontros da Ana Cris quando estava grávida do meu segundo filho, a empatia foi imediata. E foram vários outros encontros (congressos, cursos de doula e festas) que contribuíram para nossa amizade. A Ana Cris é mais do que parteira, é minha amigona, minha doula, é minha “ídala”, impossível pensar em parto sem a presença dela. Além disso, também contaria com a presença da parteira Priscila, mulher alegre, empolgada com a vida, nos encontramos poucas vezes mas parecia que éramos amigas de longa data.
O pré-natal foi maravilhoso, a Márcia fez as consultas em casa, as crianças puderam participar, enfim, cada consulta virava uma grande festa.
Comprei para os meninos o livro da parteira mexicana Naoli Vinaver “Nasce um bebê, naturalmente”, o Pedro Gabriel ficou muito empolgado, dizia que ele iria ajudar a irmãzinha a nascer, que queria ajudar a parteira e que ELE é quem iria cortar a “cordinha” do bebê. Ele mostrava o livro para todos, é muito bonito ver o olhar da criança diante do sagrado.
Pródromos
Minha gestação foi ótima, sentia-me muito disposta, feliz, feminina. A única ansiedade que tive era de que minha mãe chegasse logo (ela mora em outra cidade). Para acrescentar um pouco de emoção, meu parto à prestação começou às 37 semanas. E mais uma vez os pródromos duraram mais de quinze dias. Só que, ao contrário do último parto, eles já não surpreenderam mais, eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Era tampão que saia, contrações que duravam a noite inteira e sumiam de manhã, enfim, o verdadeiro samba do criolo doido. Pelo menos serviram para minha mãe vir, afinal o bebê já dava sinais de que logo chegaria.
E chegou o grande dia!
Na noite que precedeu meu parto eu não consegui dormir direito, não eram apenas as contrações, fui tomada pelo medo por mim tão conhecido quando a hora de parir se aproxima. É um medo de morrer, é o medo do incerto. Acendi uma vela para Nossa Senhora do Bom Parto, rezei muito. Nessas horas eu sempre apelo para a Grande Mãe. Pedi à Virgem que me amparasse, que me desse a graça de mais um parto tranqüilo (não sou do tipo carola, mas tenho fé e certa intimidade com Nossa Senhora).
Acordei com contrações bem eficazes, avisei a Márcia mas sabia que o processo ainda poderia demorar. Tive então a idéia de fazer uns biscoitos gregos amanteigados, uma receita bem difícil, mas assim ficaria ocupada durante o dia. Pedi ao Marcos para ir comigo ao mercado para comprar os ingredientes. Lá, senti minhas primeiras contrações punks. Voltamos para casa com os ingredientes, eu tinha certeza de que não conseguiria fazer os biscoitos. Pedi para minha ajudante acelerar o almoço, queria estar “abastecida” para o TP. Liguei para a Ana Cris e para a Márcia, avisei que as contrações estavam doloridas mas ainda espaçadas. Depois do almoço entrei no chuveiro, fiquei sentada na bola. Mais contrações. Pedi para o Marcos avisar minha mãe e minha irmã. A Ana Cris teve um insight e ligou pra casa, o Má disse que a coisa estava engrenando. Era greve de metro e a cidade estava um caos, então todos resolveram vir para casa para evitar a hora do rush. Apesar de saber que estava em trabalho de parto, achei que teria o bebê só à noite. Também tive medo de ser alarme falso, afinal eu estava me sentindo tão bem, agüentava as contrações numa boa, nem parecia meus partos anteriores que eu queria me dar uma tijolada na cabeça.
Todos chegaram mais ou menos juntos: minha mãe (Tania) e meu paidrasto (Cláudio), minha irmã (Estrela), Ana Cris e Márcia (a Priscila não conseguiu chegar pois foi tudo muito rápido). O Pedrinho chegou da escola e me viu dançando no meio da sala (igual ao livro dele).
Arrumaram a cozinha para montar a enorme banheira inflável (eu queria ter um parto na água).
De repente, as contrações começaram a ficar apertadas. Me revezava entre o Marcos, Ana Cris e Márcia. Estava indo rápido demais, já sentia pressão. A banheira na cozinha ainda não estava nem na metade. Minha mãe, Cláudio e Pedrinho (que segurou a mangueira o tempo todo) iniciaram uma corrida louca para tentar encher a dita cuja.
Na sala, eu já sentia os puxos. A Ana Cris correu pegar a banqueta enquanto a Macia avisava tranqüilamente que não precisava mais encher a banheira, o bebê já estava chegando.
Eu já nem pensava mais em nada, entreguei-me ao momento mágico de parir. Sentia os movimentos do bebê dentro de mim. Sentia o corpo do Marcos me amparando. Era chegada a hora. A natureza agia mais uma vez. Que delícia mais uma vez sentir todo aquele turbilhão de sensações, aquele mergulhar dentro de mim mesma. Que maravilha poder sentir-me nascer novamente.
Círculo de fogo. Silêncio. Uma vontade enorme de fazer força. Ana Cris e Márcia me lembram de soprar, para o bebê sair suavemente e não lascerar. Faço um esforço imenso, sopro, respiro devagar... De repente: Unhéééééé. Nasceu. Meu bebê vem até meus braços. É uma menina!!! Minha menina!!! Meu presente das deusas!!!
Todos choram, todos riem, todos se abraçam. Meus dois filhos aparecem para conhecer a maninha. “Eu já sabia – grita Pedro Gabriel – Sabia que era minha irmãzinha”. É dele a tarefa de cortar o cordão e ele o faz com toda propriedade, como ele tinha desejado, igualzinho ao livro favorito dele. “Neném!” – exclama João Felipe tentando pega-la.
Ana Cecília nasceu numa tarde de agosto para trazer ainda mais charme e alegria à nossa família. Ganhei meu presente, nasceu minha princesa. Sou a mulher mais feliz do mundo.
Sonhos
Numa noite, há pouco mais de um ano, eu desejei uma menina. Eu já tinha dois meninos e com eles aprendi muito sobre o universo masculino, mas, de repente, senti que precisava de alguém para partilhar experiências do feminino. Foi então que eu sonhei que abraçava e beijava uma grande deusa, lembro que essa deusa possuía uma vagina gigante, como se estivesse parindo. Pouco depois descobri que estava grávida. Infelizmente eu tive um aborto espontâneo e o processo foi muito difícil e doloroso para mim. Fiquei um bom tempo deprimida. Um dia, o meu filho, Pedro Gabriel (com 3 anos na época), disse: “Você está triste? Peraí que eu vou falar pro papai por um bebê na sua barriga pra você ficar feliz de novo.” Eu e o Marcos estávamos vivendo um momento muito bom de nosso casamento, um momento de renovação. E aconteceu o que chamamos de “efeito Argentina”, porque eu estava numa fase de total envolvimento com a cultura latino-americana (sou barroca, lembram?) ouvia muito Mercedes Sosa, estava lendo muitas poesias da poeta Alfonsina Storni e não parava de ouvir “Un vestido y un amor” do Fito Paez. Então o Má teve que ir à Argentina a trabalho e fizemos grandes rituais de despedida e de reencontro, era nosso “sangue latino” falando alto. Engravidei novamente. O mais legal é que eu descobri a nova gravidez poucas horas antes de minha irmã me ligar avisando que estava em trabalho de parto, eu fui sua doula (foi um lindo parto domiciliar).
Foi muito grande a nossa alegria, mas, por causa da perda anterior, resolvemos ser mais cautelosos e esperar até as doze semanas para contarmos a novidade. Quem disse que agüentamos? A felicidade estava estampada em nossos rostos. Logo todos souberam da novidade. Pedrinho o tempo todo dizia que a irmãzinha dele estava chegando (ele tinha uma certeza de que seria uma menina que chegava até a assustar) o João também estava feliz por eu ter um bebê na barriga..
Assim como as anteriores, esta foi uma gestação muito tranqüila. Não fiz nenhum exame desnecessário e não quisemos saber o sexo (apesar de muitas vezes eu ter vontade de correr fazer um ultrassom para confirmar minha intuição de que seria uma menina).
Um fato curioso é que, aos seis meses de gestação, fomos ao show da Maria Rita e Mercedes Sosa e, para nossa surpresa, a primeira música que “la negra” cantou foi justamente “Un vestido y um amor”, não preciso dizer que choramos muito e o bebê dançava na barriga.
Decidindo pelas parteiras
Desejei que esse parto fosse um evento totalmente feminino e nada melhor que a presença de parteiras.
Conheci a Márcia Koiffman num dos encontros da Ana Cris quando estava grávida do meu segundo filho, a empatia foi imediata. E foram vários outros encontros (congressos, cursos de doula e festas) que contribuíram para nossa amizade. A Ana Cris é mais do que parteira, é minha amigona, minha doula, é minha “ídala”, impossível pensar em parto sem a presença dela. Além disso, também contaria com a presença da parteira Priscila, mulher alegre, empolgada com a vida, nos encontramos poucas vezes mas parecia que éramos amigas de longa data.
O pré-natal foi maravilhoso, a Márcia fez as consultas em casa, as crianças puderam participar, enfim, cada consulta virava uma grande festa.
Comprei para os meninos o livro da parteira mexicana Naoli Vinaver “Nasce um bebê, naturalmente”, o Pedro Gabriel ficou muito empolgado, dizia que ele iria ajudar a irmãzinha a nascer, que queria ajudar a parteira e que ELE é quem iria cortar a “cordinha” do bebê. Ele mostrava o livro para todos, é muito bonito ver o olhar da criança diante do sagrado.
Pródromos
Minha gestação foi ótima, sentia-me muito disposta, feliz, feminina. A única ansiedade que tive era de que minha mãe chegasse logo (ela mora em outra cidade). Para acrescentar um pouco de emoção, meu parto à prestação começou às 37 semanas. E mais uma vez os pródromos duraram mais de quinze dias. Só que, ao contrário do último parto, eles já não surpreenderam mais, eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Era tampão que saia, contrações que duravam a noite inteira e sumiam de manhã, enfim, o verdadeiro samba do criolo doido. Pelo menos serviram para minha mãe vir, afinal o bebê já dava sinais de que logo chegaria.
E chegou o grande dia!
Na noite que precedeu meu parto eu não consegui dormir direito, não eram apenas as contrações, fui tomada pelo medo por mim tão conhecido quando a hora de parir se aproxima. É um medo de morrer, é o medo do incerto. Acendi uma vela para Nossa Senhora do Bom Parto, rezei muito. Nessas horas eu sempre apelo para a Grande Mãe. Pedi à Virgem que me amparasse, que me desse a graça de mais um parto tranqüilo (não sou do tipo carola, mas tenho fé e certa intimidade com Nossa Senhora).
Acordei com contrações bem eficazes, avisei a Márcia mas sabia que o processo ainda poderia demorar. Tive então a idéia de fazer uns biscoitos gregos amanteigados, uma receita bem difícil, mas assim ficaria ocupada durante o dia. Pedi ao Marcos para ir comigo ao mercado para comprar os ingredientes. Lá, senti minhas primeiras contrações punks. Voltamos para casa com os ingredientes, eu tinha certeza de que não conseguiria fazer os biscoitos. Pedi para minha ajudante acelerar o almoço, queria estar “abastecida” para o TP. Liguei para a Ana Cris e para a Márcia, avisei que as contrações estavam doloridas mas ainda espaçadas. Depois do almoço entrei no chuveiro, fiquei sentada na bola. Mais contrações. Pedi para o Marcos avisar minha mãe e minha irmã. A Ana Cris teve um insight e ligou pra casa, o Má disse que a coisa estava engrenando. Era greve de metro e a cidade estava um caos, então todos resolveram vir para casa para evitar a hora do rush. Apesar de saber que estava em trabalho de parto, achei que teria o bebê só à noite. Também tive medo de ser alarme falso, afinal eu estava me sentindo tão bem, agüentava as contrações numa boa, nem parecia meus partos anteriores que eu queria me dar uma tijolada na cabeça.
Todos chegaram mais ou menos juntos: minha mãe (Tania) e meu paidrasto (Cláudio), minha irmã (Estrela), Ana Cris e Márcia (a Priscila não conseguiu chegar pois foi tudo muito rápido). O Pedrinho chegou da escola e me viu dançando no meio da sala (igual ao livro dele).
Arrumaram a cozinha para montar a enorme banheira inflável (eu queria ter um parto na água).
De repente, as contrações começaram a ficar apertadas. Me revezava entre o Marcos, Ana Cris e Márcia. Estava indo rápido demais, já sentia pressão. A banheira na cozinha ainda não estava nem na metade. Minha mãe, Cláudio e Pedrinho (que segurou a mangueira o tempo todo) iniciaram uma corrida louca para tentar encher a dita cuja.
Na sala, eu já sentia os puxos. A Ana Cris correu pegar a banqueta enquanto a Macia avisava tranqüilamente que não precisava mais encher a banheira, o bebê já estava chegando.
Eu já nem pensava mais em nada, entreguei-me ao momento mágico de parir. Sentia os movimentos do bebê dentro de mim. Sentia o corpo do Marcos me amparando. Era chegada a hora. A natureza agia mais uma vez. Que delícia mais uma vez sentir todo aquele turbilhão de sensações, aquele mergulhar dentro de mim mesma. Que maravilha poder sentir-me nascer novamente.
Círculo de fogo. Silêncio. Uma vontade enorme de fazer força. Ana Cris e Márcia me lembram de soprar, para o bebê sair suavemente e não lascerar. Faço um esforço imenso, sopro, respiro devagar... De repente: Unhéééééé. Nasceu. Meu bebê vem até meus braços. É uma menina!!! Minha menina!!! Meu presente das deusas!!!
Todos choram, todos riem, todos se abraçam. Meus dois filhos aparecem para conhecer a maninha. “Eu já sabia – grita Pedro Gabriel – Sabia que era minha irmãzinha”. É dele a tarefa de cortar o cordão e ele o faz com toda propriedade, como ele tinha desejado, igualzinho ao livro favorito dele. “Neném!” – exclama João Felipe tentando pega-la.
Ana Cecília nasceu numa tarde de agosto para trazer ainda mais charme e alegria à nossa família. Ganhei meu presente, nasceu minha princesa. Sou a mulher mais feliz do mundo.





