é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante
carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra"
(Paulo Leminski)
A revista Pais e Filhos, uma das principais e mais antigas revistas sobre parentalidade no Brasil, lançou, recentemente, uma campanha chamada Culpa não! Excelente estratégia de marketing para convencer mães a consumirem, sem culpa, a grande variedade de produtos industrializados divulgados em sua página pelos seus anunciantes. Além disso, como forma de divulgar tal campanha, ainda dão espaço para matérias duvidosas, como a tal Papinha Sim, a qual o Movimento Infância Livre de Consumismo já se manifestou aqui e aqui.
Todos nós sempre repetimos a exaustão que "mãe e culpa andam lado a lado". Aí eu pergunto: e qual o problema de sentir-se culpada? Sentir-se culpada, a meu ver, é o que nos faz responsáveis. A culpa é aquela voz interna da consciência que, tal qual o grilo falante, grita dentro de nós: - Isso está errado! É o superego em ação.
A culpa é a minha aliada, eu me sinto culpada quando deixo as crianças comerem porcarias, quando dou um gritos a mais, quando tenho uma atitude que minha culpa diz ser mais violenta, quando acho que não estudei com eles o suficiente, quando acho que deveria ter colocado aquela roupa mais quente e por isso os pequenos ficaram resfriados, quando cedi à tentação de dar uma papinha pronta, quando deixei eles assistindo mais tv do que gostaria porque estava ocupada com outras coisas, quando eles se machucaram e eu achava que deveria ter ficado mais atenta... A culpa é o que me faz buscar novas alternativas, é o que me faz querer melhorar.
Sentir-se culpada não significa ficar se martirizando, se autoflagelando. Significa saber que poderia ter sido melhor e desejar melhorar.
Eu não quero que tirem de mim uma responsabilidade que é minha. Eu quero ser responsável pelas minhas escolhas e me sentir culpada quando perceber que errei. Não quero transferir para ninguém isso, nem para pediatras, nem para obstetras, nem para professores, nem para revistas que insistem em fazer com que as mulheres não pensem. É muito mais simples livrar-se da culpa e achar outros culpados. Mas eu não quero isso, nem para mim, nem para meus filhos.
Por isso, revista Pais e Filhos, dispenso sua campanha, deixe-me em paz com minha culpa!


